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JORNAL ASFIXIADO. É mesmo uma vergonha. Qualquer pretexto vale para não opinar. Mesmo sendo do “clube”

24, setembro, 2010 Claudemir Pereira 4 comentários

Se você ainda não sabe dos detalhes, sugiro, antes de mais nada, a leitura da nota que publiquei há três semanas, titulada “JORNAL ASFIXIADO. Vergonha: o escândalo gaúcho que a mídia joga para baixo do tapete” (AQUI). Dito isto, vamos à novidade.

Não são apenas os veículos de comunicação tradicionais que preferem esquecer o assunto que envergonha profissionais. Mas uma casta de colegas que, a pretexto de “não tumultuar o processo eleitoral”, prefere simplesmente não tomar posição. E não opinam, embora muitos deles se digam “independentes” e façam parte de um tal “Clube de Opinião”.

Mais uma vez, e com pertinência, quem cuida do tema é Luiz Cláudio Cunha. Claro que na internet, mas com bastante leitura pelos que são do meio e se espraiando pela sociedade, inclusive a gaúcha, claro. Originalmente publicado no sítio especializado Observatório da Imprensa, o texto é reproduzido no jornal eletrônico Sul21. Confira, também, aqui:

Desculpa para calar a opinião

Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio. (Groucho Marx, 1890-1977, comediante, EUA).

O respeitado Clube de Editores e Jornalistas de Opinião do Rio Grande do Sul, que reúne duas dezenas dos mais importantes colunistas e blogueiros do Estado, tomou uma grave decisão na semana passada. Por escassa maioria, numa reunião virtual feita pela internet, o Clube de Opinião decidiu “não opinar” sobre o inclemente processo que a família do ex-governador gaúcho Germano Rigotto move contra um pequeno jornal de Porto Alegre, o JÁ.

A ação judicial, que completa dez anos, está matando financeiramente o jornal de cinco mil exemplares editado há 25 anos pelo jornalista Elmar Bones, que em agosto passado teve suas contas pessoais bloqueadas pelos advogados dos Rigotto. A valente opção não opinativa do Clube de Opinião teve uma bela desculpa: “evitar qualquer conotação política-eleitoral” antes do pleito de 3 de outubro, já que Germano Rigotto é candidato ao Senado pelo PMDB gaúcho. Num sereno, mas contundente editorial publicado no domingo (19) no site do jornal e reproduzido neste OI, Elmar Bones respondeu, batendo no osso da questão:

“Pode ser uma maneira cômoda de contornar uma situação espinhosa, mas essa interpretação não encontra base nos fatos e contraria a lógica da democracia. O processo eleitoral, que exige verdade e cobra opinião do eleitor, não pode ser usado como pretexto para a omissão, o silêncio e a desinformação..”

“… Um dos mais ferozes membros do Clube de Opinião gaúcho é Políbio Braga, dono do blog mais influente e acessado do sul do país, com quase 100 mil assinantes. Militante estudantil de esquerda no início dos anos 1960 em Santa Catarina, foi diretor da Folha Catarinense, do Partido Comunista, onde era apenas simpatizante, não filiado. Chegou a ser presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), na época em que José Serra presidia a União Nacional dos Estudantes (UNE). Depois do golpe de 1964 foi preso pela ditadura uma dúzia de vezes e, na mais longa delas, cumpriu seis meses de pena no antigo presídio do Ahú, um bairro de Curitiba.

No comando de seu blog, hoje, Políbio é contundente, bem informado e impiedoso, principalmente com tudo que acontece no turbulento entorno da Casa Civil e da candidata petista à presidência da República. Quando Veja explodiu nas bancas no sábado (11/9), Políbio festejou: “Estoura escândalo maior do que o Mensalão no Governo Lula”, era a manchete do blog. Sobre o escândalo do irmão de Rigotto, matematicamente dez vezes maior do que o do filho de Erenice, quinze vezes mais estrondoso que a quadrilha dos 40 do mensalão chefiada por José Dirceu, Políbio não ousou escrever uma única linha, muito menos dar sua retumbante opinião…”

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JORNAL ASFIXIADO. Vergonha: o escândalo gaúcho que a mídia joga para baixo do tapete

Quem conhece meu trabalho sabe das restrições que faço à ação do sindicato que representa os jornalistas. Não quero nem falar sobre isso, porque me deprime. E nem é o caso. Quando, recentemente, fui atacado de forma vil, a solidariedade (imensa e emocionante) que recebi veio dos leitores e de colegas de trabalho mais próximos ou que me conhecem há mais tempo.

Mas, de todo modo, isso é irrelevante, agora. Só não consigo entender por que não saiu, até agora, nota alguma em defesa de um cara que tem história fantástica de resistência no jornalismo gaúcho. E ele atuava numa época em que muita gente que hoje se considera democrata estava beeem escondidinha.

Me refiro ao drama vivido por Elmar Bones, sócio-majoritário do jornal , de Porto Alegre, e profissional da mais reconhecida competência, fundador e tocador do falecido Coojornal, entre outras experiências difíceis e até perigosas (considerando a época) ao tempo do regime autoritário.

Eu próprio, por falta de algumas informações, não tratava do assunto. Mas agora encontrei o “gancho”. Mais que isso, a história toda. Que é contada por Luiz Cláudio Cunha. Para quem não sabe, se trata do cara que, corajosamente, por sua ação, acabou noticiando o seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre em plena ditadura militar. Nem sempre concordo com ele (nem com Bones), mas tiro o chapéu.

Você quer saber exatamente do que se trata? E de como a mídia gaúcha esconde a situação, com a conivência, inclusive, das entidades empresariais e de trabalhadores? Leia o artigo dele, com um relato excepcional de toda a situação, e publicado esta semana no sítio especializado Observatório da Imprensa. A seguir:

Jornal Já - Como calar e intimidar a imprensa

Agosto, mês de cachorro louco, marcou o décimo ano da mais longa e infame ação na Justiça brasileira contra a liberdade de expressão.

É movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, 60 anos, agora candidato ao Senado pelo PMDB do Rio Grande do Sul e supostamente alheio ao processo aberto em 2001 por sua mãe, dona Julieta, hoje com 89 anos. A família atacou em duas frentes, indignada com uma reportagem de quatro páginas, publicada em maio daquele ano em um pequeno mensário (tiragem de 5 mil exemplares) de Porto Alegre, o , que jogava luzes sobre a maior fraude da história gaúcha e repercutia o envolvimento de Lindomar Rigotto, filho de Julieta e irmão de Germano.

Uma ação, cível, cobrava indenização da editora por dano moral. A outra, por injúria, calúnia e difamação, punia o editor do JÁ e autor da reportagem, Elmar Bones da Costa, hoje com 66 anos. O jornalista foi absolvido em todas as instâncias, apesar dos recursos da família Rigotto, e o processo pelo Código Penal foi arquivado. Mas, em 2003, Bones acabou sendo condenado na área cível ao pagamento de uma indenização de R$ 17 mil. Em agosto de 2005 a Justiça determinou a penhora dos bens da empresa. O JÁ ofereceu o seu acervo de livros, cerca de 15 mil exemplares, mas o juiz não aceitou. Em agosto de 2009, sempre agosto, quando a pena ascendera a quase R$ 55 mil, a Justiça nomeou um perito para bloquear 20% da receita bruta de um jornal comunitário quase moribundo, sem anúncios e reduzido a uma redação virtual que um dia teve 22 jornalistas e hoje se resume a dois -– Bones e Patrícia Marini, sua companheira. Cinco meses depois, o perito foi embora com os bolsos vazios, penalizado diante da flagrante indigência financeira da editora.

Até que, na semana passada, no maldito agosto de 2010, a família de Germano Rigotto saboreou mais um giro no inacreditável garrote judicial que asfixia o jornal e seu editor desde o início do Século 21: o juiz Roberto Carvalho Fraga, da 15ª Vara Cível de Porto Alegre, autorizou o bloqueio online das contas bancárias pessoais de Elmar Bones e seu sócio minoritário, o também jornalista Kenny Braga. Assim, depois do cerco judicial que está matando a editora, a família Rigotto assume o risco deliberado de submeter dois dos jornalistas mais conhecidos do Rio Grande ao vexame da inanição, privados dos recursos essenciais à subsistência de qualquer ser humano…”

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