(IN)SEGURANÇA. Promotor Adede y Castro, em artigo, se diz no limite da tolerância
Dentro de alguns minutos, prevê-se a realização de uma manifestação na praça Saturnino de Brito. Ela foi convocada pelas redes sociais, mais especificamente no Facebook, por amigos e colegas do estudante Ângelo Razzolini Biazzi, ASSASSINADO no início da manhã de ontem, quando caminhava com sua namorada, no centro da cidade. A convocação é para um ato de protesto pela insegurança em Santa Maria.
O assassinato do rapaz de 23 anos também foi o elemento provocador de um texto, produzido pelo Promotor de Justiça João Marcos Adede y Castro, e publicado no seu (dele) blogue. Não é norma deste sítio publicar artigos que não sejam inéditos. No entanto, trata-se de uma exceção justificável, cá entre nós. Vale a pena (para concordar ou não) ler o que escreve Adede y Castro. A seguir, na íntegra:
“Além de chorar
POR João Marcos Adede y Castro (*)
Ainda chocado com a notícia da morte de um jovem estudante de 23 anos em pleno centro de minha cidade e, por isto, provavelmente desprovido de objetividade que só um coração isento pode ter, digo que estou cansado disto tudo.
Sou um Promotor de Justiça que sempre se orgulhou de dizer que “não podemo se entregar pros home de jeito nenhum, amigo e companheiro, não tá morto quem luta e quem peleia”, mas estou chegando ao meu limite de tolerância.
Nós, autoridades, perdemos o controle da segurança, mesmo que nunca venhamos a admitir, e isto não é realmente necessário, pois a sociedade não é boba e já sabe de tudo.
Não se trata de assumir culpas, mas de assumir responsabilidades.
Por evidente que a criminalidade está cada vez mais organizada e nós cada vez mais perdidos, sem saber o quê fazer.
Podemos chorar, mas isto não satisfaz a sociedade e não traz de volta esta e muitas outras vidas já ceifadas, além de não dar nenhuma garantia de que amanhã, e depois de amanhã, e depois, e depois, não estejamos chorando a morte de um de nossos filhos.
Sempre defendi, e que Deus me dê forças para continuar defendendo, os direitos daqueles que cometem crimes, pois são pessoas, mas está na hora de pensar nas vítimas já existentes e naquelas que, caso continuemos de braços cruzados, ainda existirão às centenas.
É mais que na hora de aumentar o policiamento, prender mais e soltar menos, acreditar que se a lei penal não é a solução para todos os nossos problemas, é um instrumento que deveríamos encarar com mais respeito, aplicar com mais inteligência e pensar na dor da vítima e seus familiares.
Não advogo entregar ao Estado, que eu também represento, poderes absolutos, mas também acho que este Estado maltrapilho, desmoralizado, desmobilizado, entregue às traças e à bandidagem e que assiste a tudo como se não tivesse nada a ver, não nos interessa.
Dinheiro para corrupção, para o empreguismo, para o estelionato eleitoral, para aumento de salário de quem já ganha muito, sempre tem. Para soluções que interessam a comunidade, bem, o orçamento anda apertado, quem sabe para o ano que vem, quando tivermos 21 vereadores…
Chegamos ao limite.
Ou assumimos nossas responsabilidades ou damos o fora, deixando que outros, mais interessados que nós, assumam.
Com certeza amanhã já estarei arrependido do tom deste discurso, mas nunca, nunca mesmo, de seu conteúdo.
Quem não concordar, que atire a primeira pedra.
Por mim, já comecei meu autoflagelo.”
(*) João Marcos Adede y Castro é Promotor de Justiça, Professor e Escritor
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